adicionar aos favoritos | Vitória/ES

24/10/2007 00:24
Adoradora de Satanás
Desde criança, fui criada dentro das doutrinas de fé do catolicismo. Meus pais, assim como todos os meus antepassados, pelo menos os mais recentes, d.C., se casaram na Igreja Católica Apostólica Romana. Assim como eles, fui batizada, fiz primeira comunhão, fui crismada, e, ainda que não concordasse mais com todas as coisas da Igreja, me casei também na Igreja Católica, onde também batizei meu único filho. Durante dois anos, na adolescência, estudei numa escola de freiras franciscanas, onde aprendi o significado das palavras caridade e amor ao próximo.
Mas, mesmo tendo um histórico completamente católico, meu coração nunca esteve em paz. Migrei por diversas religiões por cerca de 15 anos. Nunca desisti de procurar ou me envergonhei por tentar achar um lugar que aplacasse a dúvida que tinha em meu coração desesperado por respostas para os meus questionamentos. Sem leviandade ou desrespeito, me integrei completamente em diversas denominações de fé. Nunca fui dada a cultos do mal, então procurava sempre locais que pregasse o amor de Cristo e a caridade.
Igreja Católica, principalmente através da vida de São Francisco de Assis e dentro dela, conheci também os Carismáticos, que têm o dom da vidência usando esse dom através da inspiração do Espírito Santo de Deus;
Igreja Messiânica, com a prática do Johrei, luz divina canalizada através da doutrina para que nós, seres humanos, sirvamos de fonte para que haja a cura física e espiritual;
Kardecismo, onde aprendi a verdadeira face do conhecimento pelos espíritos resignados a trabalhar em nome de Jesus para livrar os irmãos encarnados ou desencarnados das trevas e que muitas coisas passaram a ter realmente significado através do Evangelho Segundo Jesus Cristo, O Livro dos Médiuns e O Livro dos Espíritos. Li praticamente todos os livros de Allan kardec e Chico Xavier;
Igreja Maranata, onde comecei a aprender a disciplina através da Bíblia e onde também eles recebem O Dom do Espírito Santo, falam Línguas Estranhas e deixam mensagens de doutrina para seus fiéis;
Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, os Mórmons, onde por necessidade de paz, fui convidada, sem nenhum preconceito ou exigência de continuidade, que me batizasse nas águas, o que fiz e foi daí que começou a abertura da minha espiritualidade latente através do recebimento do Dom do Espírito Santo. Fui batizada e duas missionárias foram responsáveis por me colocar a par de como funcionava a doutrina da Igreja, sendo que o ponto maior disso tudo, para a paz e o bem comum da humanidade é a total integração com a família que Deus escolhe para nós.
Sem aprofundamento, conheci O Salão do Reino das Testemunhas de Jeová, a Igreja Deus é Amor, a Igreja Universal do Reino de Deus, O Vale do Amanhecer, o Budismo, o Ocultismo, A Umbanda, A Kimbanda, os Hare Krishnas, os Wiccas, a 1ª Igreja Batista, a Igreja Batista Renovada, Bahäis, o Centro Espírita de Umbanda Maior, onde tive o primeiro sinal da minha mediunidade e, por fim, no final do ano de 2005, mais especificamente em outubro, pela primeira vez, sem ser convidada por ninguém, como era das outras vezes, conheci o Candomblé.
Fui por livre e espontânea vontade. O barracão, como carinhosamente é chamado o centro onde são realizados os trabalhos, era ao lado da minha casa, onde já morava há quase um ano e nunca tinha ouvido um barulho sequer.
Já era bem tarde e eu estava trabalhando, como sempre faço e ouvi o som dos atabaques. Desse dia em diante, passei a ouvir e por uma semana fiquei curiosa para saber de onde vinha aquele barulho. No sábado, uma semana depois de ter ouvido o som dos atabaques, perguntei a um rapaz que estava passando, todo de branco, aonde era o terreiro e que horas era o atendimento. Desse dia em diante, nunca mais deixei de freqüentar o Inzó Alafim de Iemanjá, cuidado pela zeladora de Santo, dona Edinéia, a quem respeitosamente me foi dada a honra de poder chamá-la de Mãe.
Nesta casa, onde passei receber a doutrina de uma das religiões mais antigas do mundo, o Candomblé de Angola Congo Bate-folha, são cultuadas as forças da natureza através dos Orixás. São 16 Orixás que representam essas forças: a água, a terra, o ar e o fogo e também a natureza humana. O poder maior é de NZambi (Deus) e o grande mestre é Oxalá (Jesus Cristo).
Acreditamos que a doutrina dos nossos dois lados, esquerdo e direito, positivo e negativo, é o que nos equilibra para que tenhamos forças para vencer a jornada de missão dada por NZambi aqui na Terra.
Pelo meu entendimento, seguir a doutrina divina é ter OBEDIÊNCIA SEM RELUTÂNCIA.
No Candomblé somos preparados espiritualmente para conseguirmos viver em harmonia com o nosso lado humano, sem abdicar de nada do que nos é oferecido aqui na Terra, desde que isso não nos prejudique ou prejudique a alguém. Tudo isso com muito respeito às diferenças e com a caridade e o amor ao próximo sem que nada seja cobrado de material. Tirando os charlatães, não conheço nenhum médium que tenha enriquecido com o dom dado por Deus.
DAMOS DE GRAÇA O QUE NOS É DADO DE GRAÇA. Isso é feito com muito respeito e com a ajuda das entidades, irmãos desencarnados que vêm ao auxílio dos que precisam de caridade, cura, doutrina e palavras de acalanto para seus males, prestamos a caridade. Muitas dessas pessoas que nos procuram são esclarecidas e sabem da seriedade do trabalho que é desenvolvido na nossa religião, especificamente na nossa casa, onde primamos pelo bem e pela caridade.
Fiz uma explanação, longa, mas necessária, sobre a minha caminhada espiritual até chegar aonde estou e onde ficarei, se assim for a vontade de NZambi e, por merecimento, por muito tempo.
Para os que me conhecem, devem ter estranhado o título ADORADORA DE SATANÁS.
Fui recentemente denominada assim por ser médium e adepta da religião do Candomblé.
Sei dos meus direitos e deveres como cidadã brasileira e quero deixar claro que além de defender minha fé e o direito ao culto dela, tenho conhecimento das leis que me autorizam a isso.
De acordo com a Constituição Federal, em seu artigo 5°, § VI – “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício de cultos religiosos e garantida, na forma de lei, a proteção aos locais de culto e liturgias”.
A pena para o descumprimento da lei é de cinco anos de reclusão, sem direito à fiança.
Fonte: Constituição Brasileira
Por intermédio do único meio que disponho para me defender que escrevi este texto. Além de sofrer preconceito religioso, não são raras as vezes que passo pelo preconceito sexual, onde sou discriminada por ter assumido a minha homossexualidade abertamente.
E sim, sou divulgadora da minha fé, sou gay assumida, sou brasileira, pago meus impostos da mesma forma que a sociedade hipócrita que tenta me julgar paga e me importo com as opiniões alheias sim, pois elas podem custar minha vida e a vida de muita gente inocente que, como eu, está no mundo para fazer valer à pena o direito de ser livre e feliz da maneira que bem entender, desde que não esteja prejudicando ninguém.
Não ignoro nenhuma atitude, nem a favor, nem contraditória ao que acredito.